O problema da perfeição: porque personagens (e pessoas) precisam ser falhos

Desde que começamos a criar, a ideia de perfeição nos persegue. Queremos o texto impecável, o personagem sem falhas, a vida sem tropeços. No entanto, o problema da perfeição é que ela é silenciosa, sem rachaduras, sem conflito e, por isso mesmo, sem história. A perfeição não nos ensina nada. A imperfeição, por outro lado, revela, provoca e transforma. É nos tropeços que mora a humanidade — e é justamente isso que buscamos na arte, na literatura e em qualquer tentativa de nos conectar com o mundo.

Por que a perfeição cria distância na criação de personagens?

É curioso como a falha, a dúvida e o erro são os elementos que realmente nos prendem a uma narrativa. Já reparou como é difícil se conectar a um personagem perfeito? Eles parecem distantes, quase inatingíveis. Na arte e na vida, a regra é clara: a perfeição cria distância. A vulnerabilidade cria empatia.

A literatura nos ensina que são as falhas que sustentam uma boa narrativa. Sem conflito, não há história. Sem a fragilidade de um personagem, não há verdade. Um personagem que erra, perde o rumo ou toma decisões equivocadas, mas insiste, torna-se inesquecível porque ele nos faz refletir sobre nós mesmos.

Por muito tempo, muitos de nós fomos vítimas dessa armadilha da perfeição, buscando o texto impecável, a frase perfeita. O resultado é um texto travado, bonito na forma, mas sem vida. Demoramos a entender que a beleza da escrita não está na ausência de erro, mas na capacidade de capturar algo verdadeiro, ainda que imperfeito.

O problema da perfeição não está apenas nos personagens, mas também em quem escreve

Ao buscar o texto perfeito, esquecemos de viver o texto, e o texto, assim como a vida, precisa respirar. O perfeccionismo, na prática, nos impede de criar, pois:

  1. Ele paralisa: dá a ilusão de controle, mas impede o movimento e a finalização.
  2. Ele oprime: a escrita deixa de ser prazerosa e se torna uma busca incessante pela aprovação.
  3. Ele fecha portas: o problema da perfeição é que ela não deixa espaço para o imprevisto, onde mora a descoberta.

Problema da perfeição? Mas por que, se te dá a oportunidade de ser criativo

Errar é, de certa forma, um dos gestos mais criativos que existem. Quando algo sai do planejado, o novo finalmente tem espaço para nascer. Às vezes, é um texto que escapa do controle, um diálogo que não saiu como imaginei, uma cena que parecia perfeita na cabeça mas não faz sentido no papel — e, ainda assim, ali surge um tom que não estava previsto, mas funciona.

Com o tempo, percebi que os erros são fonte de inspiração, não de vergonha.
Eles me mostram ações, comportamentos, decisões, crenças e contradições que passam a mover a narrativa. O erro me aponta caminhos que eu não conseguiria enxergar sozinho.

Afinal, o mundo só gira para frente” — e a narrativa também.
É por meio das dificuldades que vemos os personagens aprenderem. E eu, como autor, preciso aprender com eles. Todo personagem inicia sua jornada com algo a ser aprendido; e, quando ele finalmente aprende, a história acaba. Se não há mais transformação, ele deixa de ser a pessoa do início — e deixa também de sustentar a história.

É por isso que, em séries longas, as pessoas reclamam de personagens que parecem errar sempre a mesma coisa, dando voltas no próprio rabo, ou que já aprenderam tudo que tinham que aprender e ficam empacados em tramas que não evoluem. Não é envolvente assistir um personagem que não se transforma.
O que prende o leitor é justamente a essência da dificuldade — o conflito que permanece vivo e que revela novas camadas conforme o personagem enfrenta situações diferentes.

E na escrita é igual. A maior diferença entre quem escreve e quem desiste está aí: aceitar que errar faz parte do processo narrativo. Quem espera o texto perfeito nunca termina. Quem entende que o erro é inevitável continua.

A perfeição é um ponto final. A imperfeição é o caminho — e é nele, cheio de desvios, tropeços e viradas inesperadas, que encontramos aquilo que realmente importa: a autenticidade, o aprendizado e o afeto.

Como se libertar do desejo de ser perfeito?

Com o tempo, aprendi que não existe “acerto” definitivo na escrita ou na vida. O que importa é o movimento, o gesto de tentar traduzir algo que se sente. Quando aceitamos essa fluidez, a pressão diminui e o prazer volta.

Se existe algo que a imperfeição ensina, é sobre:

  • Paciência: Com o seu ritmo e o seu processo de aprendizado.
  • Humildade: Em reconhecer que você não tem todas as respostas.
  • Humanidade: Em saber que os melhores textos nascem das rachaduras, da dúvida, do medo — daquilo que não conseguimos explicar totalmente.

É no erro, no conflito e na fragilidade que mora o verdadeiro brilho da criação. Não procuramos alguém que vença sempre, mas alguém que tente. Não alguém perfeito, mas alguém real e posso exemplificar com uma experiência pessoal; No meu primeiro livro, eu escrevo sobre sonhos roubados — sobre quando nossos sonhos dependem de outras pessoas e, por descuido ou negligência, são tirados de nós. Como lidamos com isso? Como seguimos adiante quando aquilo que acreditávamos ter futuro perde o rumo?

Levei muito da minha própria história para esse livro. Em alguns momentos, me identifiquei profundamente com o personagem; em outros, nem tanto. Mas havia algo essencial ali: eu compreendia por que ele tomava cada decisão, mesmo quando não era a decisão que eu tomaria hoje. Porque o livro não é sobre mim — é sobre ele. Sobre alguém que precisa aprender algo, e cuja jornada nasceu de uma dor e de uma dificuldade que eu já vivi um dia.

No fim, percebi que escrever não é reviver a própria história, mas transformá-la. É permitir que a dor ganhe outra forma, outro corpo, outro destino. E é justamente aí que mora a força da narrativa: quando o que nos machucou um dia encontra lugar para ensinar outra pessoa — nem que esse “alguém” seja, primeiro, o próprio personagem.

“Há quem diga que a escrita é uma forma de sobrevivência. Para mim, é também uma forma de entender o mundo — e de entender a mim mesmo”