Sempre acreditei que escrever personagens é, antes de tudo, reconhecer em mim mesmo as partes que ainda não compreendi por completo. Quando dizem que empatia é “se colocar no lugar do outro”, sinto que essa definição não dá conta do que realmente acontece no processo criativo. Para mim, empatia é encontrar no sentimento do outro algo que se conecta com o que já vivi ou com o que poderia ter vivido caso a vida tivesse me levado por outro caminho. É nesse espaço miúdo, íntimo e imprevisível entre a minha experiência e a do personagem que nasce a história. Por isso afirmo com convicção: não existe narrativa sem envolvimento emocional; não existe personagem que não carregue, em maior ou menor grau, uma partícula do escritor.
Quando o personagem nasce de dentro
Ao começar a desenvolver um personagem, percebo que nunca parto verdadeiramente do zero. Mesmo quando tento inventar alguém completamente distante da minha realidade, algo de mim inevitavelmente escapa para dentro dele. Uma memória de infância, um medo que insisto em ignorar, um desejo que ainda não tive coragem de assumir ou até uma versão minha que deixei de ser — tudo isso acaba se infiltrando nas camadas do personagem. É como se cada criação fosse uma espécie de espelho fragmentado: não mostra o todo, mas revela reflexos.
Com o tempo, compreendi que essa fusão entre escritor e personagem não é uma fraqueza, mas uma força narrativa. Quando alguém lê um trecho e diz: “Isso parece tão real”, geralmente significa que ali existe algo vivido, algo pulsante. As emoções que atravessam o escritor também atravessam a obra, e é essa transferência sutil que dá densidade, textura e veracidade ao que está no papel. Se tento escrever algo completamente distante de mim, sem nenhuma ponte emocional, o resultado quase sempre soa frio, mecânico, ensaiado. Mas quando me permito mergulhar em lembranças, sensações e vulnerabilidades, a escrita ganha vida própria.
A escrita como espelho do que ainda não sei
Percebi, então, que a construção dos personagens é também um caminho de autoconhecimento. Quanto mais escrevo, mais descubro sobre mim: minhas complexidades, minhas contradições, os lugares onde ainda dói e aqueles onde já cicatrizou. Muitas vezes, encontro na jornada do personagem respostas que eu nem sabia que procurava para a minha própria jornada. Uma decisão que faço o personagem tomar pode revelar um desejo íntimo meu; um conflito interno dele pode iluminar uma angústia que venho tentando silenciar. A arte funciona assim: enquanto acreditamos que estamos inventando mundos, na verdade estamos traduzindo o nosso.
A escrita, nesse sentido, se torna quase terapêutica. Mas não uma terapia que resolve, e sim uma terapia que revela. Porque escrever nunca me entregou soluções prontas, mas sempre me mostrou perguntas que eu ainda não sabia formular. A narrativa, então, passa a existir nesse território sensível onde a vida real encontra a ficção, e nenhuma das duas sai a mesma depois do encontro.
Quando a evolução do personagem transforma o escritor
E há outro ponto importante: nem sempre a jornada interna do escritor coincide com a cronologia da escrita. Muitas vezes começo um personagem num estado emocional e termino em outro completamente diferente. E isso muda tudo. Por isso gosto de pensar que a narrativa é um organismo vivo. Ela respira conforme eu respiro, muda conforme eu mudo. O personagem não segue apenas sua própria evolução interna; ele também acompanha a minha. E isso faz com que cada obra seja única, não apenas pela história que conta, mas pelo momento exato da vida do escritor em que foi escrita.
Ao final, quando releio o que escrevi, percebo que os personagens carregam minhas marcas — às vezes discretas, às vezes escancaradas. Eles são feitos das minhas sombras, das minhas luzes, das minhas faltas e das minhas sobras. São versões que existirão apenas ali, na ficção, mas que revelam verdades que eu talvez não tivesse coragem de dizer em voz alta.
Por isso, para mim, a jornada dos personagens nunca é separada da jornada interna do escritor. São caminhos entrelaçados, linhas que se cruzam sem aviso, fios que conectam o que imagino ao que realmente sinto. Escrever é, no fundo, me entender enquanto invento. É transformar experiência em história. É usar a vida para criar ficção e, ao mesmo tempo, deixar que a ficção transforme a vida.
No fim das contas, não existe história sem envolvimento porque não existe escritor sem vivência. E toda vez que um personagem nasce, nasce também uma nova maneira de me observar. Enquanto eles avançam em suas jornadas, eu avanço na minha. E talvez seja exatamente isso que torna a escrita tão profundamente humana.