Por muito tempo, eu não entendia exatamente o que acontecia dentro de mim quando eu criava. Eu sabia que escrever me movia, me desafiava, me organizava por dentro, mas não tinha percebido que havia algo de espiritual nesse processo. Foi só quando comecei a expandir meus estudos, ler mais, buscar outras perspectivas e me aproximar do lado mais subjetivo da vida, que finalmente compreendi: a criatividade é uma ponte. Uma ponte entre o humano e o invisível. Entre a lógica e o intuitivo. Entre o que sei e o que ainda nem consigo formular.
Hoje, tenho certeza de que a parte criativa do ser humano é um canal direto com essa dimensão maior — chame de universo, de energia, de intuição. Criar é tocar algo que vai além do que conseguimos explicar.
Quando percebi que a criatividade era uma experiência espiritual
A virada aconteceu naturalmente. Quanto mais eu buscava conhecimento fora da escrita, mais eu entendia que escrever não era apenas um trabalho intelectual, na verdade era um estado de conexão. Quando organizei meu método e encontrei minha forma ideal de escrever, tudo ficou mais claro: havia prazer, havia presença, havia escuta. Aquilo não era apenas técnica.
E muito disso está relacionado ao silêncio [aqui vamos colocar um hiperlink que direciona ao post sobre silêncio criativo]. Várias respostas narrativas importantes surgiram enquanto eu caminhava na rua, em momentos absolutamente comuns. É aquela sensação de: “Espera, acho que o caminho do personagem é esse!” De repente, algo se ilumina dentro da cabeça e dá um impulso que não dá pra descrever. Acontece sem esforço, e justamente por isso parece tão espiritual.
Nos momentos de criação, sinto como se não estivesse escrevendo sozinho. Como se existissem energias ao redor guiando a mão, aproximando ideias, abrindo caminhos. Acredito muito nisso: no quanto colocamos energia nas coisas e no quanto essa energia retorna para nós. Criar, para mim, é exatamente isso: receber e devolver algo ao mundo.
E talvez o que mais traduz essa espiritualidade seja o ato de materializar ideias. Transformar conceitos, emoções e intuições em algo concreto — um capítulo, um personagem, uma virada de trama. Materializar é quase um ritual. É o instante em que o invisível vira palavra, e a palavra vira algo que pode tocar outra pessoa. Poucas coisas me conectam tanto quanto isso.
Meus “rituais”: o método, o ambiente e o antes da escrita
Não tenho um ritual clássico antes de escrever. Não acendo vela, não faço meditação, não coloco uma música específica. Meu ritual é meu método! Eu só começo a materializar um capítulo quando já esgotei todas as etapas anteriores: quando sei exatamente o que vai acontecer, como começa, como se desenrola e como termina.
Antes de chegar nesse momento, porém, existe um tipo de preparação que, para mim, é quase espiritual. Ela acontece na pré-produção — quando ainda estou criando conceitos, experimentando possibilidades, deixando as ideias surgirem sem pressa. É aí que eu busco conexão.
Ambientes abertos me ajudam muito. A natureza, especialmente. Mudar para Santos fez muito sentido nesse aspecto. A praia se tornou um lugar de alinhamento, de escuta, de descanso mental. Quantas vezes eu não estava caminhando pela orla e, de repente, alguma resposta sobre a jornada de um personagem aparecia quase como um sussurro? O mar me traz essa energia de movimento e fluidez que a escrita exige.
Na prática, meus rituais são simples: horários definidos, ambientes que me acolhem, momentos do dia em que me sinto mais conectado. Mas a verdadeira ritualística está no antes, no pensar, no respirar, no sentir. Tudo isso antes da página em branco.
Quando a escrita vira abrigo nos momentos de turbulência
Nos períodos de maior turbulência emocional, a primeira coisa que faço é me afastar da escrita. Parece contraditório, mas é essencial. Quando estou atravessando algo difícil, meu cérebro trava; qualquer tentativa de raciocínio vira cansaço. Então eu paro. Vou caminhar na praia, vou treinar, vou fazer algo que me tire da mente e me leve pro corpo.
E é justamente aí, nesse desligamento, que as respostas começam a aparecer. Quando não estou insistindo. Quando deixo a mente descansar. Muitas ideias importantes vieram nesses momentos de pausa involuntária, quando a vida estava mais pesada e eu buscava apenas respirar.
Mas há também o outro lado: o momento em que retorno. Terminar um capítulo, uma cena ou até uma simples passagem traz um prazer tão grande que é difícil colocar em palavras. É uma satisfação que reorganiza tudo internamente. Parece que, quando escrevo, eu coloco cada coisa de volta no seu lugar — inclusive eu mesmo.
Escrever me ajuda a equilibrar o que acontece no meu trabalho, na minha rotina, no meu emocional. É curioso pensar que, enquanto no trabalho eu resolvo problemas reais, na escrita eu resolvo problemas narrativos, mas os dois lados conversam entre si. A escrita não me pesa. Muito pelo contrário: ela me devolve leveza. E me confirma, sempre, que estou no caminho certo.