Durante muito tempo, a palavra “fracasso” foi um tabu. Eu mesmo tinha medo de admitir que algo tinha dado errado, como se o erro fosse sinônimo de desistência. Mas o “flop” — seja um projeto mal executado, um investimento que não retornou ou uma aposta criativa que não vingou — é um professor implacável. E, por mais duro que tenha sido viver isso, foi esse desconforto que me obrigou a olhar para minha trajetória com mais honestidade. Afinal, o que eu aprendi com o fracasso? Que ele não é um ponto final, mas uma vírgula necessária para a reinvenção.
Quando o sonho vira ferida
Antes de qualquer queda, eu já tinha escrito seis manuscritos. Dois deles foram desenvolvidos com intensidade aos meus 22 anos — fase em que encontrei uma editora e acreditei que finalmente viveria meu sonho literário. Hoje parece simples encontrar editoras independentes, coparticipações e espaços para novos autores. Mas, há 20 anos, esse cenário não existia. As opções eram poucas e caras.
Eu paguei 15 mil reais para publicar um livro com pseudônimo. Era tudo que eu tinha. Era tudo que eu acreditava. E era um contrato que tinha tudo para dar certo… mas flopou.
A editora não fez o trabalho dela. Não havia revisor. O livro saiu com mau acabamento. E, pior: me esqueciam nos eventos. Não me chamavam para lançamentos. Não me incluíam nas ações.
Com 24 anos, pouca instrução sobre o mercado e nenhum acesso, isso me destruiu. Ver meu sonho — o mais puro e pessoal que já tive — sendo mal cuidado por terceiros foi uma dor profunda.
Mas foi essa dor que plantou a semente da mudança.
A diferença entre pausar e desistir
Na época, eu realmente acreditei que aquele fracasso encerrava minha jornada como escritor. Parei por alguns anos — não por escolha, mas por sobrevivência emocional.
Com o tempo, entendi: eu não tinha desistido. Apenas pausei. O fracasso me obrigou a repensar não só o que eu queria fazer, mas como fazer — e com quem fazer. Ele é um excelente professor quando paramos de tratá-lo como inimigo.
O que aprendi com o fracasso: as lições que mudaram tudo
Lição 1: Deixar de buscar aprovação e começar a buscar propósito
Meu erro inicial foi tentar agradar. Tentar caber. Tentar seguir o que o mercado supostamente queria. Percebi que precisava amadurecer, entender o mercado, compreender que talento sem estratégia não se sustenta. O flop me obrigou a olhar para dentro e finalmente descobrir por que eu escrevia.
Lição 2: O erro transforma impulso em ofício
A escrita sempre foi meu impulso criativo. Mas, depois da queda, comecei a tratá-la como ofício.
Aos poucos, percebi que cada tentativa frustrada deixava pistas importantes:
- aprendizado técnico
- leitura mais apurada de contexto e público
- clareza sobre o que não repetir
O curioso é que, quanto mais eu aceitava o que aprendi com o fracasso, mais livre eu me sentia para criar.
Lição 3: A reinvenção exige estrutura — não só amor
A reinvenção profissional é dolorosa porque exige abandonar o conforto. Quando meu sonho literário despencou, decidi focar no mundo corporativo. Não por abandono, mas por estratégia. Eu queria estabilidade, crescimento, contexto, e encontrei. No ambiente corporativo, aprendi tudo que faltava na minha primeira experiência como autor:
- processo
- metodologia
- consistência
- visão estratégica
E ali vivi muitas histórias, conheci pessoas, me aprofundei em realidades que enriqueceram ainda mais minha escrita. Ganhei prêmios em empresas, desenvolvi minha narrativa interna e me redescobri.
O livro que nasce da queda
Essa fase deu origem ao que hoje considero minha reviravolta: “Na estação que paramos”, meu novo livro. Ele fala exatamente sobre isso: sonhos roubados por terceiros, caminhos interrompidos, dores que precisaram virar recomeços. Não é um livro sobre fracasso. É um livro sobre a coragem de tentar de novo.
O quanto você se conhece?
Hoje, olhando para trás, vejo meu flop não como queda, mas como curva de aprendizado. Tudo que aprendi se resume em três pilares:
- humildade
- paciência
- persistência
O que define uma carreira não são os acertos brilhantes, mas a capacidade de continuar mesmo quando ninguém está olhando.
Depois do flop, nasce uma confiança diferente, aquela que não vem de aplausos, mas do autoconhecimento. A segurança de saber que você pode cair e, ainda assim, permanecer em pé. Todo fracasso é um convite para entender o que te move — e o que precisa mudar. E, muitas vezes, ele não marca o fim. Às vezes, é exatamente ele que anuncia o começo de uma carreira que finalmente faz sentido.